Matozinhos e Suas Faces

Matozinhos e Suas Faces entrevista João Perez

O homenageado do Matozinhos e Suas Faces desta semana simboliza a data comemorada hoje, dia do Farmacêutico.


Publicado em: 20/01/2017 18:32 | Fonte/Agência: Prefeitura de Matozinhos | Autor: Assessoria de Comunicação

 

 

O homenageado do Matozinhos e Suas Faces desta semana simboliza a data comemorada hoje, dia do Farmacêutico. Um homem que construiu suas raízes na cidade e, que se tornou referência de solicitude e cordialidade, para os moradores do município que o acolheu. As experiências da vida transformaram João Perez em uma pessoa que soube aproveitar as oportunidades e evoluir como cidadão de bem. Boa leitura!

Tarumirim/MG é o ponto de partida da história dessa semana, cidade do Vale do Rio Doce onde nasceu João Perez Sobrinho, no ano de 1935. A família humilde do Sr. José Mª Peres e da Sr.ª Maria Albina Peres, seus pais, era formada por mais cinco filhos. O patriarca tinha o costume de seguir pelas cidades da região em busca de lugares melhores para se estabelecer. Nesse período, já haviam passado por Santo Antônio do Aventureiro, Córrego do Traíra e Alpercata na região de Governador Valadares. Em Caratinga, José abriu um comércio chamado Secos e Molhados que era bar e mercearia. Ficou por um tempo nessa cidade e depois se mudaram para Inhapim onde comprou uma loja de um turco. “Quando meu pai decidiu fechar com o turco, eu não concordei porque a loja já estava falida. Mas ele não quis me ouvir e concluiu o negócio”, contou João Perez que começou a trabalhar aos seis anos vendendo leite para ajudar o pai.

A facilidade para fazer amizades era uma característica de João, que se tornou amigo do farmacêutico da cidade. Após estreitarem os laços, o Sr. Agnaldo dono da farmácia, o convidou para ir trabalhar com ele. “O problema era que eu ajudava meu pai na loja. Só que o seu Agnaldo me propôs um salário fixo de 200 mil cruzeiros e fiquei muito interessado. Daí, eu falei com o meu pai que tinha recebido a proposta e queria muito aceitar. E ainda tive a coragem de falar que a loja dele estava falida e não ficaria aberta por muito tempo. Não sei como tive coragem para falar isso, pois, naquela época nossos pais eram muito rígidos e a gente não podia questionar nada”, explicou.

José aceitou o argumento do filho e aos 10 anos de idade João iniciou na farmácia. Foi ganhando experiência e confiança para atender e aplicar injeções, até que um dia disse para o pai que queria morar sozinho. O patriarca não concordou, alegando que ele tinha a assistência que precisava em casa e que era muito novo para isso. Porém, depois de seis meses, a loja do pai faliu e ele decidiu voltar para Alpercata com a família. No entanto, João Perez decidiu ficar em Inhapim e continuar trabalhando. “Lembro-me que teve uma epidemia de tifo na cidade e eu apliquei muita injeção por causa disso. Estava morando em um porão próximo à farmácia, só que eu não ia para casa dormir e ficava cochilando na calçada, porque tinha que fazer a aplicação dos medicamentos nos pacientes com hora marcada”, revelou.

João ainda era uma criança, mas já tinha a responsabilidade de um adulto e conquistou a simpatia dos moradores. Ele conta também que naquela época aprendia-se a aplicar injeções no braço do farmacêutico e utilizando agulhas extremamente grossas, pois não havia opções mais adequadas. “Tinha uma moradora que residia perto do cemitério e eu precisava ir até lá todas as noites para aplicar-lhe um remédio. Ia morrendo de medo, mas compareci todos os dias. Nesse tempo eu ganhava mais dinheiro com as aplicações do que com o meu próprio salário”, pontuou.

A saudade da família apertou e João Perez resolveu voltar para Alpercata, depois de três anos morando sozinho aproximadamente. Nessa cidade havia apenas uma farmácia pequena e não poderia pagar um bom salário a João. Com isso, ele conseguiu emprego em Governador Valadares na farmácia Santa Terezinha, onde ficou por dois anos e meio até ser transferido para a filial em Acesita. “Não precisava de carteira assinada e não tinha restrição de idade para trabalhar como é agora”, avaliou.

Devido a um desentendimento João saiu dessa farmácia um tempo depois. Mas ele não se acomodou e queria algo mais na vida. Foi aí que resolveu tentar a sorte em Belo Horizonte. Na bagagem, a coragem e uma carta de recomendação do padre de Alpercata. Pegou o trem rumo à capital, sem saber para onde iria e como seria essa nova tentativa.

Hospedou-se em um hotel, mas o dinheiro que tinha não deu para cobrir a sua estada por muito tempo. Com a simpatia e leveza comuns a sua personalidade, já havia se tornado amigo da dona do estabelecimento. Porém, não queria dizer a ela que o dinheiro havia acabado. Precisava arranjar um emprego e pediu que guardasse seus pertences para que pudesse buscar mais dinheiro com a família em sua cidade, alegando que estava em BH para estudar. Entretanto, ela o ajudou e conseguiu um emprego para ele na Drogaria Araújo.

Assim, o ciclo de amizades de João aumentava cada vez mais em Belo Horizonte. Na drogaria conheceu Luciano Cota, que era sobrinho de Alcino Cota e, a partir disso, começava a se desenhar os caminhos que o trariam para próximo de Matozinhos. “Luciano era meu colega de balcão e para me ajudar, ele me ofereceu para ir morar na casa da tia dele. Daí eu me mudei e foi uma grande ajuda que recebi”, concluiu. Na capital sua vida seguia e, novas oportunidades surgiam também. “A Drogaria Brasil fez uma proposta muito boa para mim e eu aceitei sair da Araújo. Pagava bem; a comissão era excelente e chegava ultrapassar até o meu salário”, ponderou.

Segundo João essa Drogaria era de dois espanhóis, cujo sobrenome era Perez com “Z”. Foi a partir disso que ele deixou de assinar o seu sobrenome com “S” e aderiu o Z a sua assinatura. Quando João foi demitido da Drogaria Brasil ele já havia assumido a responsabilidade por sua família aos 17 anos, pois o pai tinha falido de vez e não podia sustentar os cinco filhos e esposa sozinho em Valadares. “Cheguei a conseguir um dinheiro e levar para o meu pai para tentar ajudá-lo, mas não resolveu e eles vieram morar comigo em um porão na capital”, salientou.

Novos caminhos

Nesse tempo, João costumava vir de moto para passear em Pedro Leopoldo com o amigo Luciano. E foi ele quem sugeriu para Perez abrir uma farmácia em Capim Branco. E assim João fez, vendeu a moto e com o dinheiro que tinha decidiu abrir o próprio negócio. Porém, em Capim Branco já existia a farmácia de Gerson Rolo. Para não se indispor com o comerciante, João conversou com ele para que pudesse manter o seu negócio na cidade também. “Acertamos tudo numa boa e no final eu acabei morando na casa dele até me organizar”, contou.

Após seis meses João comprou a mesma moto que havia vendido, pois era um de seus hobbies preferidos. Conseguiu se reerguer e a sua farmácia virou referência na cidade. No entanto, a do amigo Gerson infelizmente fechou fortalecendo ainda mais o comércio de João. Mas o experiente Gerson não desistiu e depois de um tempo reabriu a farmácia, mas desta vez, em frente a do João. Isso enfraqueceu a sua clientela até que Perez decidiu fechar e se mudar para Araçaí.   

Nesse período ele já estava casado com Hilda Diniz Perez, com quem teve cinco filhos: Kátia, Karla, Kácia, Karine e João Perez Jr. O matrimônio aconteceu em maio de 1958 e, João destaca a companhia da esposa, como fundamental para a concretização de suas realizações na vida. “Ela sempre esteve ao meu lado me dando muito apoio e, para que eu pudesse aguentar uma carga horária exaustiva de trabalho, ela acordava cedo para preparar caldo de mocotó para mim, pois eu não tinha hora de almoçar e muito menos para largar o serviço”, disse.  

Em Araçaí, João viveu duas situações que marcaram a sua experiência profissional. Ele estava em sua farmácia quando um homem montado em uma mula e com uma cartucheira nas costas foi até ele para pedir que fizesse o parto da sua esposa. Perez questionou e informou que não sabia fazer partos. O homem insistiu, já que não havia médico que pudesse atender naquele momento e a parteira não estava na cidade. “Ao chegar ao local percebi que era um parto complicado. A senhora sangrava muito e eu não sabia nem como cortaria o umbigo da criança. Mas realizei com sucesso a função e consegui salvar a mãe e o bebê”, relembrou.

Em um segundo momento, a esposa do prefeito de Cordisburgo entrou em trabalho de parto e ele foi solicitado mais uma vez. “Segui para a casa deles preocupado com o que poderia acontecer. Se algo desse errado, era o filho do prefeito que estava para nascer. Só que eu não tive como negar e graças a Deus deu tudo certo”, comemorou.

João ganhou fama na cidade, pois já não era somente o farmacêutico de Araçaí. Aprendeu a fazer sutura, a avaliar os sintomas para aplicar os medicamentos necessários, a partir das experiências vividas em sua carreira iniciada precocemente. “Estava com medo de alguém morrer na minha mão. Eu não era médico, mas como naquela época não havia profissionais suficientes para atender a população, os farmacêuticos ajudavam bastante. Resolvi voltar para Capim Branco com minha esposa, antes de ter algum problema”, esclareceu.

Assim que retornaram João Perez reabriu a farmácia e aproveitou para abrir uma em Mocambeiro também. Em uma conversa com Cicinho Vieira houve a sugestão para que ele procurasse Antônio Martins, que era o dono de uma farmácia em Matozinhos e que não estava interessado em levar o negócio adiante. “Em 02 de abril de 1959 comprei a farmácia dele que funciona até hoje no mesmo local como a Drogaperez. Fiquei um tempo morando em Capim Branco, até vender a de lá e mudar definitivo para Matozinhos, onde estou há 57 anos”, comentou.

De acordo com João, quando veio para o município a Avenida Caio Martins tinha apenas um lado e não existia o canteiro central. Era uma rua de terra com poucas casas. Dr. José Diniz era o prefeito e morava na Rua Padre Francisco Chaves, no Centro. “Lembro-me que ele queria abrir essa rua que não tinha saída para a Minas Gerais como é agora. Só que Padre Teodoro, que era o pároco não aceitou. Ele chamou Island Mendes Linhares o Landinho, que trabalhava na Prefeitura para executar a obra, mesmo contra a vontade do padre”, observou.

Outra contestação aconteceu para a construção do hospital Wanda Andrade Drummond. Perez conta que Abdon era o prefeito e decidiu desativar o cemitério que existia no local, para construir a unidade de saúde. “No entanto, Cecé de Pedro Leopoldo não admitia e brigou feio porque seus pais estavam sepultados nele. Mas mesmo assim, Abdon não ouviu e prosseguiu com a obra”, asseverou.

Os anos passaram e João Perez se tornou referência em Matozinhos como farmacêutico. Apesar de não ter o curso superior, ele foi aprovado em 1960 na prova de provisionamento do Conselho Regional de Farmácia. “Só fazia a prova quem já exercia a atividade há mais de 12 anos. Fui aprovado e obtive o direito de assumir a responsabilidade técnica da farmácia que era minha propriedade”, acrescentou Perez que chegou a passar no vestibular para farmácia, mas não teve condições financeiras na época para estudar.  

Dr. Jurandy era o único médico na cidade, depois que Dr. José Diniz foi embora para Pompéu, dificultando o atendimento em Matozinhos. João Perez passa a ser procurado ainda mais pelos moradores, que não tinham recursos para buscar auxílio fora da cidade. “Eu cheguei a fazer muitas suturas nas emergências que surgiam. Depois do expediente da farmácia eu costumava ir para o hospital Wanda Andrade para ajudar a trocar soro, aplicar medicamentos e até fazer transfusão de sangue em pacientes”, destacou.

Cidadão Honorário desde 1962, título oferecido pela Câmara Municipal, João Perez recebeu a justa homenagem por reconhecimento de suas ações em Matozinhos. “Sou grato a essa cidade que me permitiu ter minha maior riqueza: a família que constitui. Já tenho 13 netos e dois bisnetos que são o meu orgulho”, avaliou.

Aposentado em 1985, nunca conseguiu se afastar do trabalho que o motiva a continuar sua missão. Aos 81 anos segue firme em seu ofício, buscando sempre o conhecimento dos novos fármacos que surgem. Bom ouvinte faz questão de atender aos clientes que com confiança, carinho e respeito buscam no querido João Perez uma solução.

O Dia do Farmacêutico comemorado nesse 20 de janeiro, se torna engrandecido, diante de um personagem que transformou a própria história em exemplo de solidariedade, determinação e fé. “Nunca apliquei uma injeção sem antes pedir a Deus que me iluminasse e tudo que fiz em minha vida, sempre pedi a ele que estivesse comigo”, finalizou.