Matozinhos e Suas Faces

Matozinhos e suas faces entrevista Euler Caldeira


Publicado em: 11/11/2016 18:30 | Fonte/Agência: Prefeitura Municipal de Matozinhos | Autor: Prefeitura Municipal de Matozinhos

 

O Matozinhos e Suas Faces apresenta essa semana histórias da vida de Euler Caldeira. As recordações que permeiam a sua memória revelam fatos da nossa cidade, num misto de saudosismo e declarações da origem de sua família. Confira mais uma reportagem especial do projeto, que apresenta recortes históricos de Matozinhos a partir das observações de seus moradores.

 

Quando Euler Caldeira nasceu em 1935, a rua onde sua família morava tinha o nome de Rua do Caju, vindo a se tornar mais tarde Estrela Dalva, no Bairro Cruzeiro. Aliás, a Visconde do Rio das Velhas era Rua Direita e a Fernando Pezzini tinha o curioso título de Aperta Papo. Ele recorda que achava estranho tal nome e que sua mãe Maria Nazaré Guerra, falava que durante uma briga entre duas mulheres, cada uma apertou o pescoço da outra sendo muito comentado o fato na época, daí a origem do nome.

Mas muitas histórias complementaram a numerosa família de Euler, formada por mais oito irmãos. Sua bisavó foi escrava na Fazenda Bom Jardim onde trabalhava para o Visconde do Rio das Velhas. “Ela se chamava Marcelina e era responsável por costurar para a esposa do Visconde. Por muito tempo esse local simbolizou a escravidão em Matozinhos. Mas quando a COMINCI se instalou, a senzala que era feita de pedra, foi derrubada para construção da fábrica”, revelou.



Euler destaca a contradição do avô Joaquim de Júlio Guerra, pai da sua mãe, que era negro e tinha preconceito com a própria cor. “Minha mãe também era negra, porém, meu avô não aceitava que ela se casasse com um negro, por esse motivo arranjou o casamento com o meu pai que era branco. Devido a essa miscigenação tenho irmãos brancos e negros”, pontuou.

Joaquim foi um homem de muitas posses e tinha influência na sociedade, mas Euler conta que o avô tinha o costume de separar os netos brancos dos negros, quando se aproximava de algum amigo influente: “Certa vez o Deputado Bento Gonçalves veio a Matozinhos e ele chamou apenas os meus irmãos de pele clara para apresentá-los a ele. Hoje acho graça desse fato, mas não me esqueço disso”, asseverou.

Contudo, Euler cresceu numa família batalhadora. A mãe dona de casa sempre foi atenciosa com os filhos e uma mulher guerreira por conseguir criar todos eles sozinha ao ficar viúva. “Meu pai, Algemiro Profeta Ramos Caldeira, morreu repentinamente durante o trabalho na lavoura, eu tinha sete anos na época. Lembro-me do corpo dele chegando numa esquife de madeira e a nossa tristeza ao receber a notícia”.

A partir de então os filhos se uniram ainda mais à mãe para garantir o sustento de todos. Maria Nazaré passou a trabalhar fora de casa e por muitos anos foi cozinheira no restaurante Cachorro Quente. Euler também começou cedo a prestar serviço nas fazendas da região, até que aos 15 anos decidiu ir para Belo Horizonte. “Eu queria estudar e achava que lá seria mais fácil, mas não foi. Consegui emprego no mercado Central descarregando caminhão e, na Capital, fiquei por mais ou menos quatro anos. Até que decidi voltar para Matozinhos”, contou.



A cidade não tinha muita oferta de trabalho e nesse período, existia apenas a fábrica de Tecido Peri-Peri sendo aberta depois, a Usina de Açúcar. Entretanto, foi na COMINCI que Euler Caldeira construiu sua vida profissional. Foi um dos primeiros funcionários da fábrica de cimento que iniciou suas atividades no município, em junho de 1958. “Quando entrei para a COMINCI não tinha experiência alguma. A empresa me deu a oportunidade de estudar pagando cursos para mim e por isso agradeço demais ao Grupo”, observou Euler que permaneceu na fábrica por 30 anos, até se aposentar em 1985.

Mas Euler pontuou que o seu grande sonho era fazer o curso superior e lamenta não ter se tornado professor: “Fui aluno da Dona Ester Gomes e muitas vezes a ajudei a alfabetizar alguns alunos. Eu ensinava os meninos a segurar o lápis para aprender a escrever. Certa vez passava pela Rua da Bahia, em BH, e um rapaz me parou. Ele me perguntou se não me lembrava dele. Na hora não me veio à memória quem poderia ser. Daí ele disse que eu o ensinei a escrever o nome e falou ao filho que o acompanhava, que era muito grato a mim. Fiquei admirado porque depois de tantos anos, como ele ainda se lembrava disso?”, analisou.

O passado remonta muitas lembranças a Euler que estava presente na cerimônia de elevação de Matozinhos à categoria de Cidade, em 1944. Ele tinha 09 anos quando o evento reuniu os moradores no Largo Bom Jesus, que mais tarde se tornou a Praça principal do município. “Foi uma grande festa e houve distribuição de muito pão com salame para todos que estavam presentes”, completou.



Arquivo pessoal: Euler estava na cerimônia de emancipação do município. Ao fundo, a primeira Prefeitura Municipal 

Matozinhos era muito pacata e quando não tinha nada para fazer, Euler juntava uma turma de amigos e seguia para a Estação para acompanhar a chegada do trem de passageiros. “Pra gente era a maior diversão ver o expresso ou misto, como era chamado, chegar na Central trazendo pessoas de outros Estados como Bahia e São Paulo por exemplo”, relembrou.

A Festa do Divino foi outro marco em sua infância e era uma comemoração católica que acontecia no mês de junho. De acordo com Euler todos os anos eram sorteados o Rei e a Imperatriz da festa, além disso, eram realizadas missas, procissões, almoço e apresentações da Banda de Música. “A cidade ficava movimentada e quando chegava setembro tinha o Jubileu. Essas eram as duas principais festas da igreja católica e que eu gostava muito de participar. Pena que a do Divino tentamos resgatar, mas não conseguimos”, explicou ao contar também, que por muitos anos participou da organização do almoço do Jubileu, sendo atuante na comunidade do Senhor Bom Jesus.  

Da fase adulta colhe os frutos do casamento com Maria da Conceição, com quem teve seis filhos. Prestes a completar 50 anos de matrimônio, nutre uma relação de cumplicidade e gratidão pela esposa, que sempre esteve ao seu lado apoiando nas mais diversas situações. “Hoje, por problemas de saúde ela precisa muito de mim e dos nossos filhos, mas graças a Deus posso retribuir a ela todos os cuidados que já teve comigo”, ponderou.



Arquivo pessoal: casamento de Euler e Maria da Conceição realizado por Padre Arnaldo, em 1967

A vida de Euler já seguiu muitos compassos e o fez passar por experiências dolorosas na infância, mas que garantiram seu crescimento e uma maturidade precoce. A morte do pai, o trabalho que virou obrigação e tomou o lugar das brincadeiras. A partida da mãe aos 62 anos e a despedida dos sete irmãos que também já faleceram, marcaram a sua história e da sua irmã Elza, que persiste junto a ele nessa caminhada dupla, vencendo as barreiras do tempo.

Contudo, Euler reafirma a satisfação plena pelo o que conseguiu até aqui. A família consolidada já com 10 netos e um bisneto, transmite de geração em geração, vivências e valores que darão continuidade ao histórico familiar de sobrenome Caldeira.