Matozinhos e Suas Faces

Matozinhos e Suas Faces conta a história de Edite e Victor pintor


Publicado em: 25/11/2016 18:00 | Fonte/Agência: Prefeitura Municipal de Matozinhos | Autor: Prefeitura Municipal de Matozinhos

 

A narrativa dessa semana é dupla e trás a história de um casal bastante conhecido na cidade. Ela, matozinhense nata, trabalhou por muitos anos no Colégio Bento Gonçalves. Ele se tornou um dos pintores mais requisitados no município, desde que aqui chegou. As passagens da vida de Edite e Victor são destacadas em mais uma reportagem especial do projeto Matozinhos e Suas Faces. Confira!

 

Antônio Emiliano Correia e Maria Lourenço de Aquino tiveram três filhos, sendo Edite Clemência Correa Expedito protagonista da história dessa semana. Com simplicidade e poucos recursos, o casal se empenhava para criar os seus rebentos, na então Freguesia do Senhor do Bom Jesus de Matozinhos. Edite nasceu em 1940 e, ainda pequena e frágil, se viu obrigada a enfrentar a morte da mãe por volta dos seus cincos anos de idade. “Às vezes me bate uma curiosidade em saber como ela era; não tenho recordações do seu rosto e nem fotos dela”, lamentou.

Eni, a irmã mais velha, aos 12 anos, assumiu a responsabilidade pelos irmãos menores Zacarias e Edite e, todos os dias, seguia com eles para a casa da avó Ermelinda. “Minha irmã é quem cuidava da gente enquanto meu pai trabalhava na roça. Ela aprendeu cedo a fazer as tarefas de casa e também era quem levava a comida para o nosso pai na lavoura”, contou. Edite revelou também que era muito apegada à irmã e quando ela decidiu se casar foi difícil a separação: “chorei muito no dia do casamento porque eu queria ir atrás dela”, completou.

Mas há muitas recordações que embalaram a sua infância e as lembranças da escola trazem momentos que Edite jamais se esqueceu. “Estudei até a quarta série de grupo apenas. Lembro-me que adorava a sopa do Visconde que a Dona Isoleta fazia e, todos os dias, ela separava um prato repleto de carne para mim, pois sabia que eu não tinha mãe e ficava com dó. Na época, a merenda era só para os alunos mais carentes e os que tinham condições levavam o próprio lanche. Antônio Drumond sempre pedia para trocar o dele comigo, já que gostava da sopa da escola e não podia pegar. Daí ele me dava o pão recheado com queijo e ficava com a minha sopa”, observou.

Edite cresceu e passou a ajudar em casa. Começou a trabalhar com faxina para a vizinhança, lavava e passava roupas também. Gostava de participar do coral da Igreja do Senhor Bom Jesus, comandado por Albertina Roque Dias, mais conhecida como Dona Naná. Edite cantava na Legião de Maria juntamente com Dona Josina, mãe de Fio de Colô, e outras mulheres da comunidade. “Dona Naná foi criada pelo padre italiano Sebastião Scarzello que projetou a atual Matriz. Ela tocava harmônio muito bem e foi professora no colégio Bento Gonçalves. Era uma pessoa encantadora e tenho muitas saudades dela”, pontuou.



Edite trabalhou por 27 anos no Colégio Bento Gonçalves

Edite conta que quando era adolescente Matozinhos não tinha muitos atrativos para as moças e rapazes se divertirem. “Adorava fazer a avenida perto da Igreja para paquerar com os meninos. A gente passava e o garoto que se interessava por uma de nós, chamava a amiga e dizia a ela que queria conversar. Só que éramos tão tímidos que quando o rapaz se aproximava, quase nem falava direito de tanta vergonha”, recordou.

Mas foi na festa de São Sebastião que Edite conheceu o marido, Victor Expedito. Além das missas que marcavam a celebração, a festa tinha barraquinhas, leilão e reunia muita gente em frente à igreja. Apesar do dia do Santo ser comemorado em janeiro, a comunidade católica passou a festejar em março, porque em janeiro chovia muito. E foi nesse mês de 1959 que o romance teve início, quando Victor veio para a cidade prestar serviços para a construção da Fábrica da COMINCI e resolveu se divertir um pouco na festa.

Porém, Ermelinda avó de Edite, não permitia que a neta namorasse, foi então que ela começou a se encontrar às escondidas com seu pretendente. “Até que um dia uma mulher contou para a minha avó e eu quase apanhei por causa disso. Daí, nós decidimos nos casar poucos meses depois, no dia 14 de janeiro de 1960”, explicou.

Após o casamento, Edite se mudou para a cidade natal de Victor, em Cristiano Otoni/MG, onde foram morar com a mãe dele. Um mês após o matrimônio, Edite já estava grávida da sua primeira filha, Elizabeth. No entanto, durante a gravidez, a firma para qual Victor trabalhava, pediu que ele fosse para Brasília prestar serviço de pintura em algumas casas. Perto do nascimento de sua primogênita, Edite decide voltar para a casa da avó, em Matozinhos, para ganhar a filha. Victor veio para cá um dia antes da menina nascer em 21/11/60, e acabou permanecendo na cidade. 

O marido se tornou conhecido no município como Victor pintor e muitas casas e prédios públicos já passaram por suas mãos. A residência dos pais de Neide Pereira, na Estação, foi o primeiro imóvel que ele pintou. “A casa era para os holandeses que viriam para trabalhar na COMINCI, e só depois a família de Neide a comprou”, disse Victor. Mas o colégio Bento Gonçalves, a Prefeitura de Matozinhos e o Hospital Wanda Andrade Drummond foram um dos locais que ele trabalhou como pintor.



Victor Expedito, mais conhecido como Victor Pintor

Já Edite foi funcionária do Colégio Bento Gonçalves, por 27 anos, no período noturno, onde controlava a entrada dos alunos na portaria, atendia telefone, fazia a limpeza do prédio e testemunhava a formação de muitos casais. “A gente sempre encontrava bilhetinhos dos alunos nas salas na hora de varrer, isso sem falar daqueles que pediam para ir embora mais cedo para encontrar com os namorados como Luciene Fonseca, Tetê e Rita Mesquita”, brincou.

Para Edite não era fácil conter tantos alunos, mas eles eram atenciosos com ela e por muitas vezes, foi homenageada nas formaturas. Mas tinha aqueles que davam trabalho e ela tinha que intervir em algumas situações. “Já livrei o professor Zé Cota de um aluno que queria agredi-lo por ter tirado nota baixa na matéria dele”, asseverou.

Ela conta que o corpo docente estava participando de uma reunião de confraternização dos professores do Bento, quando o diretor Dr. Jurandy Campos, que era médico, foi chamado para atender a um paciente. A história é reafirmada por Cristiano Gomes que também era professor no colégio: “Ele saiu às pressas para consultar um paciente no Taquaril, em Prudente de Morais. Quando voltava do atendimento, ele passou mal no meio do caminho. A secretária estava ao seu lado, mas não pode socorrê-lo. Ele tinha angina e acabou falecendo em 18/10/1966”, relembrou Cristiano.

 

A vida em família

 

Muitas histórias marcaram a vida de Edite, junto ao Colégio Bento Gonçalves. Mas um câncer no intestino a afastou das suas atividades condicionando-a ao tratamento. Foi uma fase dolorosa, mas que ela venceu com fé e persistência e hoje segue curada, acreditando na dádiva de viver.

Por mais um momento a vida continuou sendo dura com Edite e Victor, quando se viram diante da morte do filho Warley, mais conhecido como Choquito, vítima de trombose no cerebelo. “Foi o maior baque que enfrentamos juntos, ao perder o nosso caçula aos 17 anos de idade. Mas como somos espíritas acreditamos que a morte não existe. Foi difícil a nossa separação, no entanto, aprendemos a aceitar as coisas com mais clareza acreditando que para tudo há um propósito”, avaliou.

A família numerosa do casal iniciou-se com 10 filhos, sendo que um viveu até os sete meses de gestação, e o Warley que partiu ainda adolescente. Contudo, eles cresceram numa casa de dois cômodos apenas, que hoje se transformou em uma residência ampla e com mais conforto. Como contraponto, a casa abriga agora somente Edite e Victor, mas foi o cenário de muitas brincadeiras para grande parte dos nove netos já crescidos. O terreno espaçoso foi aproveitado e permite a companhia e os cuidados dos dois filhos que moram no local, Antônio e Elizabeth.

Entretanto, alguns quilômetros traduzem em saudades do filho Wolney, que mora atualmente na cidade de Santarém no Pará. A distância que faz apertar o coração, já proporcionou a Edite e Victor uma experiência que nunca imaginaram ter um dia: “Jamais pensei entrar em um avião; para visitar meu filho, nora e netos tinha que ser dessa forma, porque é muito longe”, revelou Edite.   

Os excertos dessa história já somam 56 anos de matrimônio e fortaleceram os laços desse casal, que permanece unido às intempéries da vida. Mas exemplificam também, que doar-se em comunhão e ser leal aos sentimentos e limitações, é uma boa garantia para se ter uma base familiar sólida, próspera e feliz.