Matozinhos e Suas Faces

Matozinhos e Suas Faces entrevista Magela


Publicado em: 09/12/2016 18:22 | Fonte/Agência: Prefeitura Municipal de Matozinhos | Autor: Prefeitura Municipal de Matozinhos

 

Acreditar em um sonho e persistir, mesmo que os obstáculos posterguem a realização de um ideal, é um desafio para quem não quer abdicar do que deseja, mas mantém a maturidade de esperar com resiliência. A retórica é verdadeira e se aplica à história de vida de Geraldo Magela, indicado pelo leitor Guto Marrocos, para entrevista do Matozinhos e Suas Faces desta semana. Atuante na comunidade do Vista Alegre revela os anseios que permeiam sua existência e o transforma em um cidadão de representatividade social no município. Confira!

  

O ano de 1963 marca o início dessa história, com o nascimento de Geraldo Magela de Paula, na cidade mineira de Alvinópolis. A família composta por mais cinco irmãos, foi criada com dificuldade pelo pai José Vicente de Paula e pela mãe Maria de Cássia Paulina. “O meu pai trabalhava matando formiga e usava muito produto químico, por essa razão faleceu há alguns anos com problemas no pulmão e nos rins. Já a minha mãe, ficava em casa para cuidar da gente e dos afazeres domésticos”, pontuou Magela.

Aos 11 anos ele já assumiu o peso da responsabilidade de trabalhar fora, quando conseguiu emprego na fábrica de cerâmica da cidade. Nesse período também jogava no Alvinopolense Futebol Clube, intercalando as obrigações com um dos divertimentos que mais gostava na infância. Aos 12, passou a ser técnico da categoria de nove anos, iniciando a sua vocação que viria a se perpetuar anos depois.

“Mas certa vez, o treinador do time me pediu para sair de campo alegando que eu não tinha nível para jogar com eles. Acatei a sua ordem e saí, mas discuti com ele como se fosse gente grande. Fiquei arrasado com a humilhação que passei e aquilo me travou por um tempo”, declarou.



O time de Magela já foi campeão por dois anos consecutivos em um Campeonato de Sete Lagoas(MG) 

Já aos 15 anos, o time Industrial da Companhia de Tecidos Fabril Mascarenhas, também de Alvinópolis, o chamou para jogar com o grupo e ofereceu trabalho na fábrica.  No entanto, Magela que era atleticano, não aceitou o convite porque o Industrial usava uniforme azul e branco, justamente no tom do arquirrival Cruzeiro. “Os dirigentes mantinham a tradição de ter um time formado pelos funcionários, só que eu não quis, daí, aceitei somente o trabalho que me tomava todo o tempo do dia e à noite eu tinha que ir para a escola”, concluiu.

Nesta firma ficou por mais três anos e depois passou a trabalhar como cobrador em uma empresa de ônibus, onde conheceu Neide Aparecida Sotero de Paula, que se tornou sua namorada. A vida não era fácil para os Alvinopolenses, visto que a cidade era muito pequena e oferecia poucas opções de emprego aos seus moradores.

Em 1983, Magela veio passear em Matozinhos com a namorada, que queria visitar a irmã Lia. Ficaram por uns dias até que Neide voltou para a casa, mas Magela permaneceu e o cunhado da namorada, José Pedro, conseguiu emprego para ele na USIFER. “Estava com 19 anos quando vim para cá e comecei a trabalhar com alto-forno. Depois tive a oportunidade de entrar na Thyssen, empresa na qual aposentei em 2007. A cidade me acolheu e nunca mais quis ir embora daqui. Voltei a Alvinópolis só para casar com a Neide em dezembro de 1984. Lembro-me que nossa cerimônia foi debaixo de muita chuva e foi difícil para os convidados chegarem, pois nem meio de transporte tinha direito nessa época. Em seguida viemos para morar de aluguel em Barbosa. Depois nos mudamos para a Rua Sabatine Del’ Bócio na Estação, até comprar a nossa casa no Vista Alegre, no ano de 1990, onde estamos até hoje”, explicou. 

Nesse mesmo ano, Magela tomou a decisão de iniciar um trabalho voluntário no Bairro, ao perceber que havia muitas crianças ociosas e que seria importante criar uma atividade para envolvê-las. Ele recorda que algumas delas apresentavam o comportamento mais agressivo e tinham problemas de saúde devido à obesidade. “Aos poucos fui reunindo uma turminha entre nove e 10 anos para treinar futebol. Sempre conversei bastante com os meninos e exijo frequência e boas notas na escola, para continuarem frequentando o projeto. Busco dar o apoio e a orientação que eu não tive quando comecei e, com isso, já ajudamos a formar pessoas do bem com as nossas aulas e tirar crianças da criminalidade”, observou.

Desde então, Magela persistiu com a formação de jogadores de futebol e já passou como treinador pelo Peri-Peri, Cruzeiro, Botafogo e Nova Esperança, até criar há quatro anos, o projeto Crescer Vencer Vista Alegre. Hoje são 57 alunos matriculados, dos cinco aos 17 anos, entre eles, três meninas, que frequentam os treinos toda terça e quinta, em dois horários: das 08h às 10h da manhã e das 15h às 17h30 da tarde.



57 crianças e adolescentes, com idades entre 05 a 17 anos, participam do projeto atualmente

Inúmeras crianças já foram alunas do grande Magela, em um campo improvisado que já rendeu histórias e superações. “Quando comecei a trabalhar com os meninos tive um aluno que era obeso e sofria bullying na escola por esse motivo. Assim que começou a praticar o esporte ele emagreceu e até mesmo sua saúde melhorou, já que tinha alguns problemas por ser gordinho. Outro fato que aconteceu no campo foi quando um bezerro invadiu o local e correu atrás dos garotos. Na época, era aberto e não tinha nada cercando o espaço, até que a Belocal instalou o arame farpado para gente”, contou.

Da mesma forma que Magela tem as lembranças das histórias que marcaram sua vida com essas crianças, elas cresceram e também guardam boas recordações do que já viveram e aprenderam com ele. “Acredito que a maior valia do convívio com o Magela é o aprendizado, respeito e comprometimento dele para com todos os jovens da época. Isso foi de grande importância para me tornar um cidadão e um homem de caráter nos dias atuais”, avaliou Carlos Augusto Marrocos, que iniciou com o Magela no Clube Botafogo por volta dos 12 anos e depois no Cruzeiro, times de Matozinhos.



Foto do Facebook: Na infância Guto Marrocos foi um dos alunos de Magela

O reconhecimento de Guto Marrocos resultou na indicação para a matéria dessa semana do Matozinhos e Suas Faces. Mas as homenagens já se estenderam também a entrega do título de Cidadão Honorário da cidade, ofertada a Magela no mês de junho deste ano, pela Câmara Municipal.

A continuidade do seu trabalho teve uma motivação a mais, quando a mãe de Magela adoeceu e ele se afastou por um tempo dos treinos para cuidar dela. “Minha mãe teve câncer e eu fiquei com ela para acompanhá-la nos tratamentos. Foi uma fase difícil que vivemos, mas ela com toda simplicidade e ternura me disse que eu não poderia largar o projeto e que precisava voltar e dedicar a ele, porque era muito importante para as crianças. Cada vez que me lembro disso sinto a necessidade de persistir nesse sonho”, declarou Magela.

Mesmo diante das dificuldades para manter o Crescer Vencer, que conta com o apoio de colaboradores como o Anderson, Toninho, Geraldo, Franco e o Emerson que já passou pelo projeto, Magela resiste com uma estrutura restrita, mas mantém a esperança de oferecer às crianças condições mais apropriadas: “Minha família e vizinhos também ajudam lavando os uniformes dos jogadores, mas gostaria que cada aluno tivesse o seu conjunto completo com camisa, shorts, meiões e um campo adequado com um vestiário pra eles”.



Anderson, um dos colaboradores do projeto com Magela no campo de treinamento

Magela ressalta ainda a ajuda de um ex-aluno que virou empresário e doou para o projeto uniformes e bolas, como forma de agradecimento ao treinador. Contudo, o desejo de se profissionalizar é uma perspectiva que não foi possível ser concluída, devido à falta de recursos financeiros. “Optei por estudar as minhas três filhas, Vanessa Fernanda, Valéria Cristina e Vivian Daniele, pois não teria dinheiro para investir no meu estudo”, analisou Magela que frequentou a escola até a 6ª série.

Hoje, o treinador é avô de quatro netos e exemplo de determinação para a família e amigos. Esforçado, aos 53 anos, aproveita o tempo livre das segundas, quartas e sextas como pedreiro para complementar o orçamento da casa. “Todos os desafios que venci me ensinaram que às vezes uma porta se fecha, mas outra se abre. As dificuldades fazem a gente crescer e evoluir; esse ensinamento passo para os meus alunos, que acreditam no projeto como eu acreditei que um dia poderia fazer a diferença. Ainda não conseguimos tudo que queríamos, mas creio que estamos no caminho”, finalizou.