Matozinhos e Suas Faces

Matozinhos e Suas Faces conta a história da Banda Sagrado Coração de Jesus


Publicado em: 23/12/2016 17:09 | Fonte/Agência: Prefeitura Municipal de Matozinhos | Autor: Prefeitura Municipal de Matozinhos

 

Para construirmos a narrativa desta semana do Matozinhos e Suas Faces, recorrermos a diversos personagens que ajudaram a desenvolver o enredo histórico da Corporação Musical Sagrado Coração de Jesus.  Hoje, a Banda é a protagonista dessa reportagem especial, que apresenta com satisfação um dos grandes símbolos da nossa cidade. Os depoimentos colhidos são carregados de sentimento e descrevem uma relação de amor e comprometimento para manter viva a tradição. Boa leitura!

 

O Hino Nacional ressoava fora da Matriz do Senhor Bom Jesus, tocado pela Banda de Música de Pedro Leopoldo. O som chamou a atenção de Marcelo Diniz durante a consagração, na missa do dia 14 de setembro de 1980. A cerimônia celebrava a data do padroeiro de Matozinhos, marcando mais um Jubileu na cidade. Naquele momento, Marcelo cantava no coral de Dona Naná e pensou que seria importante o município ter a própria Banda de música para tocar nesses eventos.



Foto arquivo de família: Marcelo Diniz foi o fundador da Banda

Naquele mesmo ano, Helvécio Diniz participava de um encontro de casais no Salão Paroquial, junto com Marcelo e outras pessoas. Ele conta que o primo levantou-se e pediu aos participantes da reunião que o ajudassem a criar a banda. A ideia foi aceita imediatamente e o grupo começou a articular sua formação. “Para conseguirmos verbas e apoio da Prefeitura era preciso ter um estatuto, por isso providenciamos logo o documento. Lembro-me também que Liliane Fonseca nos ajudou a elaborar o texto. Mas Marcelo foi uma das peças fundamentais, porque ele se dedicou ao máximo para conseguir levar adiante a proposta”, revelou Helvécio.

“Era comum contratar bandas de fora para tocar nas festas religiosas daqui. Foi por isso que o Marcelo, meu pai, decidiu formar a Banda de Matozinhos e procurou José Gonçalves da Silva, o Zequinha da loja, para pedir ajuda. Ele foi músico na antiga Banda de João Damasceno e ainda guardava os instrumentos, só que era preciso reformá-los. Daí, eles se juntaram e com a ajuda da comunidade levaram para Belo Horizonte para serem consertados”, explicou Marcelo Diniz Júnior, mais conhecido como Marcelinho e filho do fundador da Corporação.

As primeiras reuniões aconteceram no Salão Paroquial da Igreja Matriz, quando em 09 de agosto de 1981, houve a formação oficial da Corporação Sagrado Coração de Jesus. “A aula inaugural ocorreu na casa da minha avó, na Rua Oito de Dezembro, onde minha mãe Selma mora hoje. Zequinha era músico na Corporação Cachoeira Grande e o meu pai o convidou para ser o maestro”, disse Marcelinho que passou a integrar a Banda junto ao pai, quando tinha 11 anos.



Foto arquivo da Banda: Corporação Musical Sagrado Coração de Jesus na década de 80 

A Corporação teve muitos colaboradores e inicialmente, sua direção foi formada por Marcelo Diniz que foi o primeiro presidente, Helvécio Diniz como vice, José Gonçalves (Zé do Armazém) secretário, Heli Diniz tesoureiro, Mozart Diniz procurador e Neide Pereira relações públicas. “Mas contávamos também com apoiadores como Dona Dina, as irmãs Branca e Neusa Martins, Ninha e Aparecida Diniz que faziam parte do conselho. Para conseguirmos manter a estrutura da Banda recorríamos à comunidade que sempre nos ajudou. Tinha ainda os carnês para sócios, em que as pessoas pegavam um talão e todo mês Mozart ia à casa dos contribuintes para recolher o dinheiro das doações”, recordou Heli que foi tesoureiro por nove anos.  



À esquerda foto arquivo de família: Mozart Diniz tocava percussão, prato, chic chic e bumbo na Banda. Á direita, Heli Diniz.

Marcelinho Diniz recorda de alguns nomes que foram importantes na trajetória da Banda e que participaram apoiando sua trajetória como Paulo Teixeira, João Emiliano, João Damasceno, Somel, Toninho Curinga e Bernardo Maciel. Ele afirma ainda, que a Corporação é um importante celeiro musical, pois muitos Matozinhenses que, hoje são músicos profissionais, tiveram sua iniciação com a Banda. “A Sagrado Coração de Jesus tem um bom histórico com músicos que se profissionalizaram como o Ygor, Iara Alves, Adma Silva e Felipe José”, enumerou.

 

Infância e a música

 

Desde o início a Sagrado Coração de Jesus é composta por crianças e adultos, perfil mantido durante toda a sua existência. A maioria dos seus componentes ingressou ainda criança como revela Francisco Sérgio Santos, o Chico Rosa: “Eu tinha 13 anos quando entrei para a Corporação. A cidade não tinha atrativos na época e foi uma novidade que atraiu muitas pessoas. Lembro-me que a inscrição aconteceu na Prefeitura e a minha foi feita por Leninha Diniz. Foram mais de 100 alunos inscritos e grande parte não entendia nada de música e desses, ficaram de fato na Banda, uns 33 alunos apenas”, recordou.

Chico observa que a Banda nasceu no período militar e o maestro Zequinha era simpatizante do regime e mantinha uma disciplina bastante rígida com o grupo. “Como havia muita criança e adolescente era inevitável esta exigência. Dos adultos desse período lembro também de Zequinha Machado, Luiz Paulino, Chumbinho, Djalma Teixeira e Tustão”.        

Trombone e tuba são os instrumentos que Chico aprendeu a tocar. Há 35 anos na Corporação, é o único músico que se mantém na Banda desde a sua formação. Ele esteve presente nas principais apresentações que marcaram a história da Sagrado Coração de Jesus, como a cerimônia de posse de Tancredo Neves como Governador em 1982 e, como Presidente no ano de 1985, em Brasília. “A Banda era formada por muitas crianças e isso chamou a atenção de Tancredo na sua posse para Governador. Quando ele ganhou as eleições para presidente, nos convidou para irmos à Capital Federal para representar o nosso Estado, onde tocamos Peixe Vivo e Oh! Minas Gerais. Na festa dos 100 anos de Belo Horizonte, em 1997, também estivemos entre as 100 Corporações do Estado, que participaram do evento em homenagem ao centenário de BH”, completou.



Chico Rosa está há 35 anos na Corporação e se mantém desde que foi fundada

A participação ativa como músico da Corporação é intrínseca ao dia a dia de Chico, que já foi membro da diretoria por pelo menos 18 anos e presidente por seis mandatos. Hoje, o professor de história e geografia se dedica às duas atividades, mas conceitua a Banda como uma extensão da sua vida: “Meu desejo é que a Corporação seja sempre mantida e que represente a nossa cidade por onde for, e, que eu possa continuar nela até quando Deus me chamar”, concluiu.  

Sobre a apresentação em Brasília Helvécio Diniz destaca que tocaram as duas músicas em frente à Catedral e de repente, receberam a ordem do exército para encerrar a cerimônia. “No entanto, o próprio exército ofereceu o dormitório do quartel para nos abrigar naquela noite. Mas com a ressalva que devíamos ficar recolhidos no local sem sair até que fosse dada a permissão. No dia seguinte recebemos o convite do Correio Brasiliense para permanecermos em Brasília por três dias, porém, não aceitamos porque tínhamos que voltar para Matozinhos, já que as crianças tinham aula e não poderiam faltar”, comentou.



Helvécio participou do processo de criação da Banda junto ao primo Marcelo Diniz

André Geraldo Martins era um clarinetista de 15 anos quando viajou com a Banda para Brasília. Ele conta que ficaram sabendo que não houve a posse do Presidente Tancredo Neves, somente quando retornaram para Matozinhos. Tancredo foi o primeiro civil eleito em eleição indireta no Congresso Nacional, após a ditadura Militar, mas que não assumiu por ter adoecido à véspera da posse, falecendo pouco tempo depois. 

O clarinete foi o primeiro instrumento que André aprendeu a tocar. Ele iniciou na Corporação aos 11 anos por influência do avô Zé do Armazém, que já tinha sido músico na Banda de João Damasceno. De acordo com André, o avô ficou 56 anos afastado dessa atividade e retornou por causa da formação da Sagrado Coração de Jesus, onde tocava o clarinete também. “Ele voltou a tocar aos 82 anos e onde ele estava eu o acompanhava. Posso afirmar que meu avô foi um grande incentivador e a banda foi o meu berço musical”, analisou.



André segue o legado do avó José do Armazém que o incetivou a ser músico

O gosto pela música e a vontade de aprender evoluíram e André passou a frequentar algumas aulas no Palácio das Artes em BH. Mas teve que se afastar da música por um período para servir ao exército. Aos 21 anos, retornou a Sagrado Coração de Jesus, desta vez, como maestro. Desde então, são somados 19 anos de experiência como regente da Banda, apesar de algumas idas e vindas.  Cargo já ocupado por Zequinha, Cristiano, Leonardo Oliveira, Isac Macedo e Carlos Alexandre (o Batata).    

André também é regente nas cidades de Capim Branco, Inhaúma, Cordisburgo e Sete Lagoas e exalta a Sagrado Coração de Jesus como uma grande guerreira: “A Banda conseguiu se sobressair em meio a tantas dificuldades para se manter firme. Executou importante papel social e cultural em Matozinhos, envolvendo muitos jovens que poderiam estar na criminalidade. Ela esteve presente na vida de muitas gerações e foi responsável pela formação de inúmeros casais que se conheceram e se casaram por intermédio dela, como Olga e Welington, Anderson Cota e Andrea, Juliana Diniz e Felipe Storino, Margareth e Niltinho”, pontuou. 

 

Vencendo barreiras em nome da tradição

 

As dificuldades lembradas por André marcaram a história da Banda desde o início da sua formação. Helvécio Diniz explica que quando começaram a Corporação não tinham uniformes e o presidente Marcelo pediu a ele que tentasse resolver essa questão. “Consegui 27 conjuntos com a comunidade e empresários do município. O primeiro que usamos era composto por um kep (tipo boné), túnica branca com botões dourados, camisa bege de manga cumprida, calça azul e sapato preto. Eu ainda comprei as estantes e partituras que não tínhamos para ajudar a Banda”, revelou.

Para que a Corporação conseguisse manter as apresentações fora da cidade, era preciso contar com a colaboração de muitas pessoas para terem o transporte, estadia e alimentação. “A Banda sempre participou de muitos eventos cívicos e religiosos. No passado, nos apresentávamos em cinco festivais de bandas em média, durante o ano. Isauro Figueiredo e Lucinha Cota foram grandes colaboradores para que essas viagens acontecessem”, analisou Heli Diniz.

A corporação nasceu sem uma sede própria e por muito tempo isso foi um problema para os componentes, que ensaiavam em um local improvisado na casa da família de Marcelo Diniz. “Somente por volta de 2003 é que foi iniciada a construção da sede, em um anexo do Palácio da Cultura, cedido por Lúcia Maria Figueiredo Cota, que era Prefeita na época”, ressaltou Chico. 



Foto arquivo de família: apresentações da Banda Sagrado Coração de Jesus

Ele revela que havia a preocupação de se manter o número de músicos na Banda para que ela não deixasse de existir. Foi então que em 2010, a Corporação criou o projeto Casa da Música para formação de novos alunos, oferecendo aulas de violão, percussão e instrumentos de sopro. “O projeto tinha como objetivo contribuir para a perpetuação da instituição e buscava trabalhar os aspectos da formação musical, de cidadania e cultura com crianças, adolescentes e adultos. Mas infelizmente não conseguimos dar prosseguimento a ele”, frisou .

Para Carlos César dos Santos Paulino, atual presidente da Corporação Sagrado Coração de Jesus, um dos principais desafios já enfrentados ocorreu quando houve a divisão da Banda, em 2013. “Por divergências de opiniões houve o afastamento de alguns músicos. Foi uma fase difícil e que prejudicou bastante as nossas apresentações, porque não tínhamos mais a Corporação completa. Por muitas vezes a Banda de Capim Branco nos ajudou emprestando os seus músicos para que pudéssemos manter a nossa agenda. Mas conseguimos inverter a situação e contamos agora com 25 músicos”, avaliou.

César acompanha desde os nove anos a história da Sagrado Coração de Jesus, idade que ingressou na Corporação, por intermédio de Chumbinho, seu pai, que toca o bumbo. Sua primeira experiência foi com a caixa surda e hoje, após 13 anos de Banda, já conhece na prática outros sons: “Tive um tempo afastado, mas voltei e não pretendo sair mais. Agora já toco clarinete, sax, bateria e quando o maestro André não pode ficar na regência, eu assumo o posto dele. Aprendi muito com o André e com a Banda que considero minha segunda família”. 



César é o atual presidente da Banda e iniciou na Corporação aos nove anos

Além de César, Chumbinho influenciou as filhas Michele Cristina e Elisângela que foram porta-bandeiras da Corporação no passado. Mas a tradição segue viva na família e, o próprio César, espera que uma das suas filhas siga os seus passos na música. “A Letícia tem 10 anos e já frequentou algumas aulas, mas não persistiu. Já a Sofia, de quatro, manifesta o desejo de aprender bateria e clarinete. Será uma grande alegria e um orgulho pra mim se uma delas seguir conosco”, enfatizou o músico que hoje está com 30 anos.

A Banda recebe alunos de todas as classes sociais e a partir dos seis anos de idade. Sem fins lucrativos, foi criada para atender a comunidade de Matozinhos. “Já teve muita criança que a gente tirou da rua e que se sentiam importantes a cada apresentação que fazíamos. Isso foi o que mais me marcou no período que estive com a corporação”, lembrou Helvécio que tocou sax-horn e tuba, por seis anos, tempo que permaneceu na Banda como músico.

Como uma irmã mais nova, porque é assim que Marcelinho define sua relação com a Sagrado Coração de Jesus, tem na memória as melhores recordações do que já viveu dentro dessa trajetória musical. Do Sr. Marcelo Diniz, desponta o semblante alegre e satisfeito que traz as saudades de um homem que foi exemplo para a sua vida. A cada apresentação que é ovacionada, o orgulho de levar adiante o projeto iniciado pelo patriarca. Marcelinho já foi presidente e vice-presidente da Banda, começou tocando trompete, depois passou para o trombone de vara quando fez um curso no Palácio das Artes. Agora, toca o bombardino instrumento que o saudoso maestro Zequinha gostava de tocar.



Marcelinho Diniz é filho do fundador da Corporação e segue os passos do pai

Marcelo Diniz descreve na letra do Hino que criou para a Banda, que ela chegou devagarinho, mas que veio para ficar. No início era um, depois dois, somaram três, hoje são tantos que fica até difícil contar. Se estivesse vivo diríamos para o Sr. Marcelo, que a Corporação Musical Sagrado Coração de Jesus construiu a sua história em Matozinhos, rica em detalhes, personagens e carregada de sentimento. De braços abertos para o público, estará sempre disposta a levar adiante o legado que ele iniciou. Se “a música é a arte de manifestar sentimento através do som”, como define o maestro André, a Banda foi capaz de despertar e fazer brotar as melhores sementes de amor e alegria, conforme o seu fundador idealizou.

“Se o nosso lema é amar e ser feliz, o som que a gente faz é para você o que me diz?” (Hino à Banda - Marcelo Diniz).    

 

 

Interessados em fazer parte da Corporação Sagrado Coração de Jesus devem procurar a sede da Banda, à Rua Conceição Cota nº 20 – Centro – atrás do Palácio da Cultura. Lembrando que a Corporação retorna as suas atividades e atendimento ao público a partir de janeiro de 2017. Contato: 3712-4156.

 

 

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