Matozinhos e Suas Faces

Matozinhos e Suas Faces entrevista Fio de Colô

Ele é uma figura bastante popular em Matozinhos e conhecido por ser bom de prosa e contador de casos.


Publicado em: 10/11/2017 18:34 | Fonte/Agência: Ascom | Autor: Ascom

 

Ele é uma figura bastante popular em Matozinhos e conhecido por ser bom de prosa e contador de casos. De sorriso solto e alma leve, Claudomiro Cândido Cupertino Filho, mais conhecido como Fio de Colô é o protagonista do Matozinhos e Suas Faces desta semana. Esse querido morador marca o retorno do projeto, que atende a pedidos dos leitores após diversas indicações do seu nome. Venha com a gente e embarque nesta história. Boa leitura!

 

Muita gente conhece Fio de Colô pelas histórias sobre a nossa cidade que ele costuma contar por aí, seja nas rodinhas de conversa, nos encontros entre amigos ou em registros em jornais e livros publicados. Mas nem todo mundo sabe sobre a sua essência e as origens desse morador, nascido em abril de 1936, em Matozinhos.

Claudomiro Cândido Cupertino, seu pai, foi quem recebeu o apelido Colô em uma brincadeira na Barbearia de Zé Baú. De acordo com Fio, o pai sempre frequentava o estabelecimento que era ponto de encontro de amigos na época. “Quando meu pai chegava, Zé Baú o cumprimentava dizendo: “E aí Colôdomiro”. Foi então que o apelido Colô começou a ser usado e todas as vezes que um dos filhos passava por lá, o pessoal dizia, “olha o Fio de Colô”. “Como eu tinha o mesmo nome dele, com o acréscimo apenas do Filho ao sobrenome, com o tempo fui o único a ser chamado de Fio de Colô”, explicou.

Claudomiro, o pai, era casado com Josina Horizontina Cupertino. Ele, natural de Caeté e carpinteiro e ela dona de casa, natural de Jequitibá. Fio revela mais uma curiosidade envolvendo, desta vez, o nome da mãe. “O Horizontina foi dado porque minha mãe nasceu no dia da inauguração de Belo Horizonte”, recordou.

O casal veio para Matozinhos no período da construção da Matriz do Senhor Bom Jesus. Claudomiro foi contratado para ajudar nas obras e fazer o serviço de carpintaria. Mas, por aqui, ele e Josina permaneceram e constituíram a família Cupertino. Depois de concluir as obras da igreja ele ajudou também, na construção do prédio da Escola Visconde do Rio das Velhas, onde mais tarde, se tornou porteiro assumindo a função por 40 anos. Religioso, gostava de ajudar nas tarefas na Matriz durante as celebrações ou batendo o sino. Função que foi assumida por Bernardo Inácio, quando Claudomiro morreu.

Os pais de Fio de Colô tiveram ao todo 23 filhos, apesar de terem sobrevivido após o parto, 16. Desses, apenas três estão vivos: Fio, Conceição e Darci. A família numerosa teve uma criação rígida, comum à conduta dos pais naquela época. A casa sempre cheia não era um complicador, mesmo que em um quarto dormissem oito pessoas em um cômodo que não era tão grande. Mas Fio observa que eram felizes, mesmo com algumas limitações. “Aprendemos a trabalhar bem cedo ajudando nas plantações e criação de porcos. Os mais novos ficavam em Matozinhos, mas os mais velhos, foram trabalhar ainda bem jovens na Fazenda dos Amaros em Pompéu, que mexia com extração de cristal. Eles só voltavam para casa no fim de semana e era a forma que ajudavam nas despesas da casa, já que eram muitos filhos”, contou. 

 

Memórias e experiências

 

A infância remete muitas recordações a Fio. Um dos momentos que marcou a sua vida foi por volta dos seus sete anos, quando passou a ser coroinha na Matriz. Ele pontua que gostava de ver o padre falar em latim e que tinha um desejo enorme de ajudar nas celebrações. “Só que eu morria de vergonha, porque eu não tinha roupa e sapatos novos. Por essa razão Pe. Otávio me deu de presente uma botina e minha mãe fez uma calça para que eu pudesse ir sempre arrumadinho. O sapato era bem maior que o meu pé, mas o padre falou para eu não trocar porque daria para eu usar bastante tempo”, relembrou.

Fio aprendeu a tocar o sino da igreja com o sapateiro Lafaiete. Ele consertava calçados em uma lojinha que tinha no Centro e, durante anos, foi responsável pelo badalar do instrumento. “Sempre às seis da manhã, meio dia e às 18 horas Lafaiete subia para bater o sino, mas quando acontecia a morte de alguém ele também era tocado, porém, com batidas diferentes. As pessoas na cidade sabiam que havia morrido alguém pela diferenciação do som. Lembro que muitas vezes, vi lá de cima da torre, moradores correndo para o ponto do Lafaiete para perguntar quem tinha morrido”, frisou.

Vender lenha e esterco é outra atividade que o conhecido Fio de Colô exerceu em Matozinhos, ainda na infância. Já aos 12 anos, trabalhou na destilaria da usina de açúcar que se instalou na cidade. Na fazenda de Dr. Jurandy Campos, aprendeu a cortar cana. Teve a experiência como garçom no restaurante italiano Bosch, em Lagoa Santa. Estudou no Ginásio Nossa Senhora de Fátima, hoje Escola Bento Gonçalves, no período da 1ª a 3ª série. No município de Curvelo, fez adaptação para a prova que o levaria a ingressar na 4ª série, novamente nessa escola, onde recebeu o diploma de Professor Primário Regente de Classe. “Passei a dar aulas na instituição nas disciplinas de geografia, matemática e sociologia. Por lá fiquei três anos e fui professor substituto no Visconde por seis meses”, disse.  

Mas na Prefeitura de Matozinhos constituiu a sua carreira profissional, sendo servidor da casa por mais de 40 anos. No ano de 1955 ele entrou para a instituição sendo nomeado porteiro contínuo da Prefeitura. Nesse tempo, o cargo era abrangente e Fio fazia café, ajudava na limpeza das repartições, além de serviços como office boy. Claudomiro Filho aproveitou o convênio que existia com o Instituto Brasileiro de Administração Municipal (IBAM) para fazer cursos por correspondência. Entre as várias opções, ele concluiu a de técnico administrativo, fiscal de tributos, auxiliar de secretaria e chefia de gabinete. “Foi assim que, aos poucos, consegui subir de cargo dentro da Prefeitura chegando a ser chefe de gabinete por uns 12 anos, só que em gestões diferentes”, completou.

O serviço público sempre preencheu os seus dias e assim que se aposentou assumiu como juiz de paz no Cartório de Paz e Registro Civil. “A oportunidade surgiu porque, às vezes, eu substituía Antônio Cândido Vieira que era o juiz. Com a sua desistência ao cargo, fui convidado e acabei aceitando. Fiquei por dois anos como responsável pelo cartório e depois pedi licença para assumir a chefia de gabinete na Câmara Municipal, entre 2013 a 2014. Depois disso, comecei a ficar mais em casa e hoje cumpro uma rotina mais sossegada, acompanhando jogos de futebol que adoro e palavras cruzadas”, observou.

Sempre agradável e animado, características que o acompanham desde a adolescência, ele revela momentos que marcaram essa fase. “Eu gostava da hora dançante que tinha no clube da COMINCI na Estação. De segunda a segunda tinha festa lá e eu ia quase todos os dias; gostava muito de dançar”.

Fio de Colô resgata da memória as serenatas que fazia pela cidade com um grupo de amigos e, a cada parada na casa de alguma moça, o lanche era garantido na janela com biscoitos, salgados e café. “Por um período fomos proibidos pelo delegado João Damasceno, de continuar a fazer as serenatas devido a assaltos que estavam acontecendo, enquanto nos apresentávamos. No entanto, um dia ele pediu para marcarmos em uma casa qualquer para criar uma emboscada e prender os suspeitos. Assim fizemos, mas sem que ninguém soubesse o objetivo. Justamente na hora da apresentação tentaram roubar a casa e o delegado já estava no local e prendeu os bandidos”, comentou.

 

A vida por um fio

 

Em 2018, Fio completa com sua esposa 50 anos de matrimônio. O namoro com Maria Augusta Cupertino iniciou a partir de cumprimentos na janela. Ele passava em frente à casa onde ela morava e fazia questão de ser gentil, até que um dia foram apresentados um ao outro nascendo assim, o romance entre os dois. Da união do casal nasceram Cássia e Cássio. Hoje, a família Cupertino de Fio de Colô tem como frutos também, os netos Mateus Henrique, Camila e Ana Carolina.    

A honestidade é um fundamento que o grande patriarca ensinou aos seus filhos, assim como tratar bem as pessoas. “Acredito que seja um dos ensinamentos mais válidos que deixo a eles”, concluiu. Mas Fio analisa um episódio que marcou a sua família, quando num momento de fraqueza ele se entregou ao alcoolismo. “Fui viciado em bebida por muitos anos, mas eu não enxergava o problema. Achava que bebia socialmente e não percebia que, aos poucos, estava perdendo o senso de responsabilidade. Não sabia que era uma doença. Meus familiares e amigos orientavam para que eu procurasse ajuda, mas não aceitava. Cheguei a ficar internado por causa de uma tuberculose proveniente do álcool. Só depois de um tempo e por interesse próprio, procurei o Grupo Nascer de Novo dos Alcoólicos Anônimos, que funcionava no Visconde. Lá na terapia de grupo ouvi inúmeros depoimentos de pessoas até conhecidas, e só assim compreendi a gravidade do meu problema”, declarou.

Há quase 40 anos Claudomiro Filho parou de beber e costuma frequentar as reuniões do AAA esporadicamente. Ele afirma que esse foi o maior desafio que enfrentou em sua trajetória até o momento. Foi uma luta contra a si mesmo, a cada 24 horas vencidas, a comemoração de um dia de glória. Fio de Colô se revelou para a vida, abrindo os olhos da alma para uma nova realidade. Para o Matozinhos e Suas Faces, fatos de um matozinhense que se mostrou sob um olhar diferenciado que nem todos estão acostumados a visioná-lo. Homem de muitos casos e rico de uma história completa e bonita de si.