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Toninho Curinga conta a sua história no Matozinhos e Suas Faces
31/03/2017 - 18h15 - Por: Ascom

Uma mente brilhante que pulsa criatividade. A vida para Toninho Curinga é uma constante arte em construção. Se o pensamento desperta o interesse em um objeto, ele se esforça para dar expressão ao mundo material que o inspira. Muitas são as pessoas que o conhecem pelo seu carisma e pelo dom de transformar, dar significado e movimento as suas criações. Há muitas histórias para contar e por essa razão, o Matozinhos e Suas Faces aceitou a indicação da nossa leitora Regina Araújo em mais uma narrativa para ilustrar o projeto.   

 

Antônio José Rodrigues, mais conhecido como Toninho Curinga foi uma criança curiosa e que gostava de acompanhar o pai José Curinga em suas atividades. Ele conta que às vezes seu José perdia a paciência com ele, porque era só ouvir o barulho da motocicleta Jawa que o pai tinha, para imediatamente subir em sua garupa e seguir com ele para onde fosse.

Sua mãe, Eni Mercês Rodrigues era dona de casa e cuidava dos quatro filhos que teve. Três deles nascidos em Matozinhos e somente Toninho nasceu em Peri-Peri, no ano de 1962. Nesse período, o Distrito ainda pertencia ao município e anos depois, é que passou a pertencer a Capim Branco. Após o seu nascimento a família passou a morar em Matozinhos por um tempo, mas assim que o pai conseguiu emprego na fábrica de tecidos Casimira Peri-Peri, se mudaram para o Distrito novamente.

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Toninho na Jawa do pai, no canto esquerdo a cima e, na réplica que ele cosntruiu 50 anos depois

“Meu pai era um dos gerentes da fábrica e por esse motivo eu e meus irmãos tínhamos acesso livre a ela. Lembro-me da organização do espaço da tecelagem e do tamanho que era o empreendimento, que naquela época empregou muita gente”, pontuou. José Curinga ganhava bem na fábrica, mas nesse período tudo era restrito e difícil de adquirir. Toninho revela que ele e os irmãos ganhavam roupas novas somente para ir ao Jubileu: “Era só uma vez no ano, mas a gente nem ligava e entendia a situação. Carne comíamos somente no sábado e no domingo era sempre frango”, ressaltou.

Dos passatempos prediletos da infância, nadar no Ribeirão da Mata era sua maior alegria; a água era limpa e tinha profundidade suficiente para pular de cabeça. O futebol também era forte em Peri-Peri, principalmente porque a fábrica de tecidos só empregava quem praticava o esporte, justificou Toninho. Ele gostava de produzir os próprios brinquedos, como as famosas baratinhas ou carrinho de rolimã e até inventava manivela para empinar papagaio. “Sempre gostei de criar as coisas e certa vez, fiz um canhão para um trabalho da escola. Porém, quase entrei numa fria, pois ele funcionava de verdade”, comentou.

Desde os oito anos, Toninho Curinga já sabia as suas responsabilidades e dividia as obrigações entre o período em que frequentava a escola Santa Terezinha na parte da manhã e, o trabalho com o pai à tarde. “Conheci a mecânica muito cedo e só parava para estudar, só que cursei até a 4ª série apenas e nunca me especializei por opção”, avaliou.

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Quando a fábrica de tecidos faliu, José Curinga ainda continuou como síndico da massa falida sendo responsável pelo patrimônio que restou. Depois virou a Cerâmica Paredão, que segundo Toninho foi uma das melhores e maiores da época e que empregou inúmeros matozinhenses. Já no início da década de 80 e meados de 90 funcionou no mesmo local, a Têxtil Gabarito que alavancou a economia de Capim Branco e Matozinhos, gerando emprego para a população.

Ainda na infância aprendeu com o saudoso Somel um ofício que o fascina até hoje. “Aos oito anos aprendi com ele a tocar trompete. Roberto e Toninho de Mocambeiro me emprestaram o instrumento e me lembro de que ia cedo para a casa do Somel aos domingos, e batia na janela avisando que eu já havia chegado para a aula. Depois disso, nunca mais deixei de tocar e posso afirmar que a música abriu portas intransponíveis para mim”, analisou. Mas, com a chegada do Washington Circo Brasil à cidade, aos 12 anos, Toninho Curinga decidiu que queria ser artista e ficou por mais ou menos um ano morando com a trupe. “Tocava na orquestra e andava no globo da morte com uma motocicleta James Inglesa”, completou.

Ao perceber que não conseguia ganhar dinheiro com o circo, resolveu voltar a trabalhar com o pai. Na sequência, conseguiu emprego na Cerâmica Paredão e depois na Thyssen. Como a oferta de emprego era escassa na região, chegou a morar em Bocaiuva e Montes Claros em busca de novas oportunidades. “Na parte da manhã prestava serviço como torneiro mecânico e à noite tocava com uma banda de baile. Quando fui embora de Peri-Peri tinha uns 19 anos e fiquei fora uns seis”, observou.

Ao retornar para a sua cidade natal, conheceu em Matozinhos Denise Brito de Melo e, em 26 de fevereiro de 1988, se tornou sua esposa com quem teve três filhos: José, Marcos e Pedro. O destino se incumbiu de somar mais três netos a história da família e agora, Lucas, Clarisse e Antônia fazem parte desse enredo.

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Arquivo pessoal: Toninho Curinga e família

A personalidade criativa de Toninho é o seu diferencial e uma herança do pai, que tinha a fama de sempre dar um jeitinho para resolver as coisas. “Ele também tem o apelido de Curinga, pois como no baralho o curinga mata todas as cartas, e assim ele sempre fez na vida; nada ficava sem solução. Eu sigo o mesmo ensinamento e para mim não existe esse negócio de eu acho que não vai dar certo e, mesmo que seja difícil, não deixo de dar um jeito também”, assegurou.

Toninho mantém em Peri-Peri, há 08 anos, a oficina Curinga Rodas, de onde sai as suas mais elaboradas criações. Especialista em produzir triciclos e recuperar rodas, ele extrapola os limites da imaginação fazendo justamente o que não é corriqueiro no mercado. Com um público característico que procura designers que retratam a antiguidade ou que tenham o aspecto de raridade, ele consegue elaborar modelos únicos como a motocicleta intitulada Poderosa de 1700 cilindradas, com motor de Kombi, injetada, cinco marchas e cardam. A outra batizada como Burra, tem a mecânica de 1600 cilindradas, carburada, quatro marchas e corrente. Mais uma importante criação, é a réplica da locomotiva de Sete Lagoas/MG, que possui os traços perfeitos da original com uma única diferença, ao invés de ser movida a vapor, a sua se movimenta por ar comprimido.  

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Nesta semana Toninho Curinga ganhou as páginas do jornal O Tempo com uma matéria que destacava uma das suas invenções, a bicicleta caracterizada como “Veículo da Crise”, com capacidade para 15 passageiros e um motorista. Ela possui ainda um balcão para que os passageiros se apoiem e um barril de chopp, para quem quer curtir o passeio tomando a sua cervejinha. O veículo foi feito a pedido de um empresário de Belo Horizonte.  

Toninho Curinga transforma as suas ideias em comodidade e bem-estar para comunidade também. Cansado de ver a quantidade de lixo jogado no entorno do local onde mora, ele criou o Globo da Vida, localizado na Avenida Presidente Juscelino Kubstchek, em Peri-Peri, com a finalidade dos moradores depositarem todo material que é reciclável. “A proposta surgiu no ano passado a partir da campanha da fraternidade, cujo tema era Casa Comum, responsabilidade de todos!. Elaborei o projeto e reuni com Romar que era o Prefeito de Capim Branco, sendo aprovada a proposta. Em seguida, apresentei aos moradores em um encontro na minha oficina e a partir disso, formamos uma comissão; criamos os guardiões do globo e colocamos em prática. Hoje fazemos uma coleta mensal em torno de 1800 kg de recicláveis e toda quinta-feira, a Associação dos Catadores de Materiais Recicláveis de Matozinhos (Asmatoz), recolhem o material”, contou.

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Toninho e suas duas invenções: a bicleta e o Globo da Vida 

Apesar de ter vivido muitas experiências em Peri-Peri, seu vínculo com Matozinhos sempre foi muito forte. No município, Toninho abriu a Curinga Torneamento assim que se casou. Um tempo depois, manteve a Cerâmica Matozinhos entre 1991 a 2003, no Distrito Industrial, empregando muitas pessoas. Seus pais moram atualmente na cidade. Hoje, José Curinga aos 91 anos, segue uma vida ativa, toca saxofone e até anda de bicicleta. Eni, sua mãe, aos 78, tem uma boa saúde e segue praticando suas atividades também.

Toninho tem um dia a dia agitado e muitas vezes, as suas invenções chegam a tirar-lhe o sono. Mas faz questão de destacar um momento que transcende uma paz interior inexplicável. Amante de cavalgada, há 25 anos participa da Comitiva Serra Sertão, na Serra do Cipó. “Todo dia 18 de junho fazemos o trajeto de Santana de Pirapama a Conceição do Mato Dentro. Esse caminho só dá para fazer a pé ou a cavalo. No entanto, devido a tantos acidentes que sofri de motocicleta, hoje já não consigo cavalgar, mas não abro mão de acompanhar no carro de apoio. A serra tem uma magia e uma beleza admirável. Quando estou lá penso como na passagem bíblica que diz que a casa do meu pai tem várias moradas”, analisou.  

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Arquivo pessoal: cavalgada na Serra do Cipó

A música continua movendo Toninho Curinga, trazendo recordações que pra sempre irá se lembrar. “Muitos foram os carnavais ao lado do meu amigo Somel que me ensinou a tocar Parabéns Para Você e Destino Desfolhou. Lembro-me que 15 dias antes da sua morte, ele me ligou pedindo que afinasse o instrumento para tocar em seu velório. Achei que era uma brincadeira e o fato acabou acontecendo de verdade e toquei na cerimônia. Tenho muitas saudades dele”, declarou.

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Arquivo pessoal: Toninho toca trompete há mais de 40 anos 

Em Capim Branco, ele marca presença todos os anos no boi da manta e há quatro anos Toninho toca no coral da igreja Nossa Senhora da Conceição. Mas boa parte da sua história é carimbada pelos famosos triciclos de carga ou de passeio que criou e, que inclusive, já o levou com a família para diversos destinos, até para o nordeste.

Toninho Curinga é um homem idealista que soube despertar seus sonhos e transformá-los em realidade. Todo o esforço empreendido trouxe a ele aprendizado e crescimento, mas acima de tudo, o conhecimento aprendido na prática das vivências e desafios da vida.

 

 

 

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