Cultura e Turismo

Dia da Consciência Negra


Publicado em: 20/11/2021 10:42 | Fonte/Agência: Ascom | Autor: Ascom

 

 

No dia em que é celebrada a Consciência Negra refletimos o papel desse movimento, a partir do conceito de quem representa a luta e resistência do negro, com base em suas vivências. Recebemos um texto repleto de significados, sob o olhar de Walice D’Bara, administrador do Museu Oju Aiye e que compartilhamos com vocês. Uma leitura contextual, que une os caminhos entre o passado e o presente de um povo que ainda clama por respeito, reconhecimento e aceitação. Confira!

Umbuntu, somos todos nós!

“Um povo que não conhece a sua história e não valoriza seu passado é como uma árvore sem raiz.” Marcus Garvey.

A consciência do que somos está além das histórias contadas, que nos definem enquanto povo negro, está aquém das verdades que calçaram os caminhos pedregosos, nos quais passamos durante séculos até chegarmos até aqui.

A história que nos desnudou foi a mesma que trocou nossa realeza de África por trapos e correntes; os séculos se passaram e lentamente vimos parte do que éramos se apagar, mas continuamos, como numa incessante guerra cotidiana da nossa liberdade, e nenhuma guerra foi por um, todas as lutas foram por todos, assim, no Umbuntu resistimos e incessantemente voltamos a existir, dia após dia, século após século.

Certamente, esteja também nesta reflexão, a consciência da intrínseca resiliência de que o povo preto, feitos de tantas histórias, contadas e recontadas, feridas e curadas, leves e pesadas encontraram o sentido de se refazer, apesar do despedaço que a história nos causou.

Absolutamente, a escravidão não  resume a história dos negros em nosso país, não podemos resumir um livro lendo somente as páginas do meio,  mas,  certamente, a posteridade reservou como herança  todos os seus legados, as suas heranças e seus costumes que permeiam nossa sociedade até nos dias de hoje, seja no  samba, maracatu, carnaval e a capoeira, as farofas e as feijoadas, as broas de milho e o mugunzá, a crença africana e o sincretismo religioso; quem nunca se benzeu em uma benzedeira, ou tomou um banho de erva, ou se reuniu com a família para uma feijoada ao som de um samba aos domingos, assim como faziam os pretos forros e escravos a séculos anteriores.

Ao termos consciência sobre a importância desta data, entendemos de uma melhor forma, a bela e importante diversidade étnica na qual nossa sociedade foi e está estruturada.

O Brasil é casa de todo nós, pretos, indígenas e brancos; pessoas, viventes e pensantes, e é somente pensando sobre a pluralidade de tantos povos que alcançaremos meios para vivermos numa sociedade mais inclusiva, respeitosa e menos singularizada e marginalizada pela intolerância.

Os degraus ainda estão desalinhados para que o povo preto possa subir, a equidade ainda é sonho alusivo ao nosso povo, mas acredito que se o tenebroso meio de nossa história não nos dizimou, da mesma forma, continuaremos a lutar até que os degraus e as portas estejam acessíveis na mesma dimensão a negros, indígenas e brancos. A necessidade de percepção da desigualdade pode ser cruel, mas o despertar para solucioná-la é tão importante quanto a ciência das questões que se arrastam a resvalam-se nos direitos pétreos e constitucionais, de todo indivíduo brasileiro.

Consciência para compreender,

Consciência para respeitar,

Consciência para reparar,

Consciência para prosseguir!

Por Babalorixá Walice D’Bara, Líder religioso do Ilé Asé Alakétú Sàngó Airà Igbonã e administrador do Museu Oju Aiye.